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NEWS Campeões nacionais em fase de extinção
Muito se tem debatido em Portugal sobre a importância dos campeões nacionais e sobre os centros de decisão em território luso. É um tema que gera muita discussão e polémica mas ainda assim arrisco em dizer o que penso, como sempre.

Aqui ao lado, no país vizinho, a criação de campeões nacionais foi uma bandeira nos tempos de governação de Jose Maria Aznar. Fomentou-se a criação de grandes grupos económicos através de iniciativas de influência onde o próprio governo agiu como facilitador de aproximação entre as várias partes interessadas. Mas um impulsionador essencial na atividade de M&A no país vizinho foi a criação da lei que possibilitou amortizar-se o goodwill logo no primeiro ano e assim criar-se um tax shield que perdurasse durante bastante tempo. Em paralelo, fomentaram-se as fusões no sector bancário que acompanhou e contribuiu para toda esta atividade de concentração. Criaram-se grandes conglomerados em áreas diversas como a construção, utilities, petróleos, infraestruturas, telecomunicações, entre outras. Estas empresas rapidamente aproveitaram a sua dimensão para se internacionalizarem nos países hispano-americanos e beneficiarem do crescimento dessas economias emergentes.

Em Portugal não houve uma estratégia tão concertada por parte dos governos, não se assistiu a um movimento tão forte de concentração e talvez por isso houve uma maior demora na internacionalização dos grandes grupos económicos Portugueses. Ainda assim, criaram-se alguns campeões nacionais, na maioria empresas participadas pelo Estado e detentoras de monopólios naturais.

Estas empresas tornaram se também o núcleo de relações pouco transparentes com os vários governos, sendo acolhedoras frequentes nos seus cargos de executivos, ex-dirigentes de cargos políticos e seus simpatizantes, o que contribuiu para a degradação da imagem corporativa, até pela demora na tomada de decisão. Por sua vez, muitas destas companhias têm beneficiado de favorecimentos tanto nos concursos públicos, como no abuso e manipulação de preços, e no “fechar de olhos” pelas autoridades da concorrência.  

Em Portugal, este tema volta a ser discutido acesamente em praça pública devido a todo este movimento de privatizações imposto pela TROIKA e que já permitiu o encaixe de cerca de 8,1 MEUR pelo Estado. Reclama-se a fuga de centros de decisão, o facto de estas empresas gerarem grandes dividendos, apostarem na investigação e criarem empregos para quadros superiores, o que agora estará ameaçado. Em alguns casos reclama-se o despedimento em massa que as novas direções já puseram em marcha. O facto de termos até agora núcleos de decisão nessas grandes empresas em forte ligação com o Estado, a meu ver, pouco benefício tem trazido ao país. Se não vejamos, os preços praticados em muitos dos serviços como telecomunicações, energia, correios, transportes não são significativamente mais baixos que a média Europeia, na maior parte deles até pelo contrário. A formação de quadros também é um argumento discutível uma vez que normalmente alguns dos mais altos quadros estão escondidos atrás de ex-governantes e sem uma relação direta com o mérito individual. Não possuo números sobre os montantes destinados a investigação, mas acredito não serem superiores aos alocados por uma multinacional, além de que os Governos poderão ter um papel importante a este nível ao criarem medidas alternativas, como a disponibilização de verbas para este efeito junto das universidades. Sei bem que existem os denominados sectores estratégicos, mas no contexto do mundo global em que vivemos e da consequente perda de soberania nacional que já é uma realidade, não é possível mensurar o risco destes ativos irem parar a mãos estrangeiras. A meu ver, em cenários de catástrofe, o nosso destino já pouco dependeria das decisões dos nossos governantes.

Claro que também a nacionalidade e cultura do país de origem do capital comprador influi na gestão das empresas adquiridas, na delegação de poder e confiança nos quadros portugueses, o que torna esta discussão um pouco mais abrangente.

Em tom de conclusão, num país já muito refém dos decisores políticos internacionais, com índices de corrupção dos mais altos da Europa, e onde os nossos quadros são muito valorizados pelo seu empenho, profissionalismo e independência, julgo que esta aparente ameaça de perda dos chamados campeões nacionais e seus centros de decisão, pode ser vista num outro prisma, como um desafio.

João Boullosa
Managing Partner
DUO Capital

VIDA ECONÓMICA
24/01/2014
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