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NEWS A Desconfiança
Depois de viver fora de Portugal durante pouco mais de 5 anos consigo perceber melhor alguns traços generalizados e muito enraizados na maneira de ser dos Portugueses. Algumas características muito comuns na nossa cultura diferenciam-nos de muitos dos nossos parceiros Europeus e tornam-se muitas vezes num grande entrave à modernidade e à produtividade. Somos um povo muito desconfiado por natureza e essa característica acaba por influenciar e muito, o nosso dia-a-dia. Por exemplo, por sermos desconfiados, dificilmente aceitamos ser contactados por quem não conhecemos, e quando isso acontece, a troca de informação é limitada. Talvez por esta razão se criaram tantas regras e protocolos, burocracia em demasia com o objetivo de limitar a possibilidade de burla e do aproveitamento ilícito.

Nos negócios em Portugal, a figura do intermediário ganha destaque, pois em muitos casos, só as boas referências geram a confiança necessária para se conhecer e iniciar qualquer processo de negociação.

Nas relações comerciais entre dois ou mais agentes, a desconfiança gera muitas vezes ganância, tentando ganhar o máximo possível à custa da outra parte. Na negociação entre várias partes é comum discutir-se tudo e mais alguma coisa, mesmo que sejam pontos de pouco impacto económico para as partes. Isto acontece porque existe a desconfiança de que a contraparte nos está a “passar a perna” e a desequilibrar a balança, gerando mais valor para ele que para nós. Falta o bom senso, falta perceber que as relações só perduram no tempo quando há benefícios para todos, quando ambas as partes estão satisfeitas. Quando eu realizo uma transação económica, por norma gostaria que essa relação perdurasse no tempo para potenciar futuras transações. Claro que será o meu primeiro objetivo gerar valor económico para a minha empresa, mas também quero que a minha contraparte fique satisfeita com a transação e que ganhe motivação para considerar a minha empresa um parceiro de negócio. Só assim considero que fui bem-sucedido. 

Considero igualmente que a desconfiança está intimamente ligada com o mau funcionamento da nossa justiça e que isso pode potenciar corrupção e enriquecimento ilícito. Existe desconfiança pelo próximo, pela classe política, pela entidade patronal, pelo colaborador. Isto limita e muito o investimento e consome recursos além de tempo. Esta mentalidade só pode ser combatida no dia-a-dia num relacionamento sincero e aberto entre patrões e empregados, numa melhor e mais transparente comunicação por parte dos órgãos do poder e por uma reforma gradual na justiça.  
  
Para agravar este cenário, neste contexto de grave crise económica, tenho assistido a uma grande resistência à mudança dentro das grandes instituições. Foram retirados benefícios e regalias aos trabalhadores, em paralelo com um enorme aumento da incidência fiscal a toda uma classe laboral que se tornou reativa e muito pouco pró-ativa. Os trabalhadores em vez de lutarem, de trabalharem mais e melhor, tornam-se revoltados e sem vontade de fazer mais do que aquilo a que são obrigados. Por isso é difícil inovar neste contexto, é difícil experimentar caminhos alternativos numa altura em que são tão necessários. Mais do que nunca, as grandes instituições Portuguesas necessitam de olhar para dentro e pensar além dos problemas do dia-a-dia, buscar novas propostas de valor e abrir a presença de espírito a novos desafios.  

João Boullosa
Managing Partner
DUO Capital

VIDA ECONÓMICA
24/04/2014
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