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NEWS Revolução Ética
Os últimos acontecimentos nomeadamente no grupo Espírito Santo e com outros empresários conhecidos da praça fazem-nos perceber de uma maneira clara como foi alicerçado muito do aparente crescimento económico de alguns Grupos empresariais Portugueses.

O dinheiro barato e fácil, as relações promíscuas entre empresários, banqueiros, advogados e políticos permitiram o crescimento de entidades que de fato não geravam valor acrescentado mas que se foram dimensionando com dívida, com troca de favores e onde muitos dos intervenientes defendiam os seus próprios interesses em detrimento dos interesses corporativos. Agora está a nu o grave problema do sobre-endividamento e de falta de produtividade da nossa economia. Aqueles que sempre defenderam a manutenção dos centros de decisão terão que se mentalizar que essa bandeira está cada vez mais difícil de se defender. A desconfiança sobre toda a nossa elite empresarial e financeira, sobre o sistema, sobretudo relativamente aos banqueiros vai demorar a ser restaurada e os seus efeitos não são de menosprezar. Acima de tudo, valores como a ética, responsabilidade, confiança e integridade não foram respeitados. Existe uma grave crise de valores oriunda das classes mais protegidas e de quem se pede o exemplo. Temos de voltar ao básico e reconstruir uma sociedade baseada em valores éticos, a qual só assim será mais justa e equitativa. Toda a sociedade, sobretudo o sistema de ensino, tem de refletir e pensar que sociedade queremos ter e que pessoas queremos formar e atuar desde já sobre os mais jovens. As fronteiras entre o que está certo ou errado não podem ser zonas cinzentas, pelo contrário tem de haver uma clarividência geral sobre o comportamento a seguir e sobre aquele que tem de ser condenado.

A nossa economia está doente, mas a austeridade e o seu tratamento de choque seguramente contribuirão para a cura de parte desta doença. As novas gerações encontram um ambiente muito mais complicado, muito mais exigente, sem qualquer protecionismo e que os força a serem realmente competentes. Serão seguramente estas últimas cada vez mais as nossas futuras elites empresariais em detrimento das famílias e grupos tradicionais. E a banca? A banca terá também de mudar de vida e repensar o seu modelo de negócio, não só porque o anterior modelo está falido, mas também porque o Basileia III a isso obriga. Terá forçosamente de assumir mais risco junto dos novos empresários e abandonar a sua antiga dependência junto do setor do betão. Tem de ser mais exigente no seu modelo tradicional, repensando para isso todo o seu modelo de avaliação de risco, controlos internos e modelos de governação corporativa. Mas esta tarefa está longe de ser simples uma vez que os rácios de capital exigido são cada vez mais exigentes. 

Apesar de continuar estupefato com todos os acontecimentos dos últimos meses, escrevo este artigo com a esperança e convicção de que caminhamos para uma maior meritocracia e para uma sociedade mais justa e livre.

João Boullosa
Managing Partner
DUO Capital

VIDA ECONÓMICA
05/09/2014
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