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NOTÍCIAS O Caso GES
Não me quero debruçar sobre todas as polémicas que giram acerca da queda do maior conglomerado Português nem sobre por quem se distribui a culpa de todo este desaire.

Reflito sim sobre um aspeto que me parece óbvio: o Grupo não tinha mecanismos de controlo suficientes para se perceber em tempo real o que se passava em cada negócio, em cada participada. Se os bancos normalmente são conhecidos por serem evoluídos, será muito por culpa do acesso à melhor tecnologia existente, às capacidades de reporting e organização. Mas nem este know how foi transposto para um Grupo que tem um banco na sua génese. Havia também uma total concentração de poder no Presidente do Grupo, e aparentemente, pelo menos alguns dos administradores só o eram no papel, não desempenhando qualquer função ativa de gestão. Estes dois aspetos combinados tornam impossível uma resposta atempada aos desafios que se impõe a um grupo destas dimensões. 

Outro aspeto que me chama a atenção é que no meu entender não existem fatores críticos de sucesso transversais a todos os negócios do Grupo. Parece-me um Grupo cheio de empresas descorrelacionadas umas das outras e que apenas beneficiarão de um melhor acesso a financiamento bancário (pelas más razões!) e do jogo de influências exercido por um Grupo que a medida que crescia de maneira muito rápida tornava-se cada vez mais estrutural na economia Portuguesa e ramificado por diferentes sectores de atividade.

Concluo por isso que a holding do GES não trazia valor acrescentado à gestão das suas participadas, era sim um centro de custos sem reais contrapartidas geradoras de valor.

A crise de 2008 veio provocar um abalo transversal a toda a economia Portuguesa e apanhou de surpresa todos os negócios muito alavancados e com pouca folga operacional. A crise apenas destapou por completo um problema estrutural de muitas economias incluindo a nossa, muitos negócios estavam já há demasiado tempo alicerçados na excessiva alavancagem financeira e não nas vantagens comparativas como indicam as leis de mercado. Os tempos mudaram e obrigaram as empresas a focarem-se no seu core e a serem inovadoras na procura do crescimento e a cortarem gorduras. O tempo dos grandes conglomerados já era e a especialização requer cada vez mais competências muito próprias.

Para muitos gestores é mais fácil identificar a crise financeira como a grande culpada de todos os problemas sem se fazer o trabalho de casa e se perceber se o negócio em causa é competitivo ou não, e se a rentabilidade do Projeto per se é suficiente independente da sua estrutura de capital. O Mundo está a mudar muito rapidamente, é por isso importante ter empresas ágeis, que se apercebam rapidamente das novas tendências de mercado e que possam moldar rapidamente as suas orientações estratégicas a todos esses impulsos. 

João Boullosa
Managing Partner
DUO Capital

VIDA ECONÓMICA
12/12/2014
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