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NOTÍCIAS O Papel dos Conglomerados Mistos em Portugal
Saiu recentemente um livro que reflete sobre as vantagens para a economia Portuguesa dos Conglomerados mistos e com especial incidência sobre o GES. Este livro foi encomendado pelo próprio Ricardo Salgado à SAER, embora os seus autores José Poças Esteves e Avelino Jesus garantam que houve uma total isenção e independência na sua elaboração e assente em metodologias rigorosas. Admito que não li o livro, mas vi uma entrevista dos seus autores na televisão e confesso que não fiquei minimamente convencido pelos seus argumentos. Defendem estes senhores que o GES deveria ter sido perseverado através de ajudas estatais, assim como aconteceu noutros países como nos casos da General Motors nos EUA e da Peugeot em França. Eu acho a comparação no mínimo desvirtuada, estas duas empresas são produtoras de bens transacionáveis, além de serem desde há muito símbolos importantes da indústria desses países, contribuindo de sobremaneira para o volume de exportações, nível de emprego, inovação tecnológica, e encabeçando clusters industriais compostos por centenas de fornecedores de bens e serviços.

O Grupo GES era um conglomerado misto composto por centenas de empresas, a maioria pertencente ao sector não transacionável, numa arquitetura complexa e onde o dinheiro circulava de umas para as outras sem ser fácil a perceção de quais efetivamente libertavam cash flow de maneira regular. No fundo a maioria delas perdia dinheiro há muito tempo e o maquilhar das contas ajudou a esconder o problema durante esse período.

Estas empresas pertenciam a sectores diversos de atividade, empregavam muita gente, mas para além destes fatores tenho alguma dificuldade em constatar o real beneficio para a nossa economia. Serviram de instrumentalização do poder e de trampolim para negócios pouco claros. Além disso o Grupo cresceu muito alavancado no crédito cedido pelo Banco do Grupo e ultimamente até com recurso a dinheiro de particulares, clientes do banco. Este último aspeto também me faz descordar destes dois economistas quando comparam o GES com o La Caixa de Espanha, pois este último soube separar a gestão do Banco dos outros ativos e a verdade é que a situação financeira dos dois grupos nem é, nem nunca foi comparável. 

As várias empresas não tinham correlação entre elas e a meu ver não existem méritos na gestão que me fizesse acreditar no acrescentar de valor em todas elas. Aliás, era pouco percetível a estratégia de expansão do Grupo, agravado por uma falta de boas práticas de governance onde se confundiam os gestores do Banco com os gestores das Holdings de topo.

Acho o tema interessante, o já muito debatido papel dos Conglomerados mistos, mas por coincidência ou não, nas economias mais desenvolvidas do Mundo, estes grandes Grupos tem vindo progressivamente a reduzir o seu tamanho através da venda de ativos não estratégicos. 

João Boullosa
Managing Partner
DUO Capital

VIDA ECONÓMICA
03/07/2015
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